As lendas são parte da tradição de uma cidade, transmitidas de geração em geração. Em Paranaguá, cidade histórica, diversas lendas e contos fazem parte da identidade local, entre elas estão a lenda da Caveirinha e a lenda do túnel que ligaria a Fontinha ao bairro do Emboguaçu. A Folha do Litoral News conversou com Alessandro Pires Staniscia, orador do Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá (IHGP), que explicou e detalhou alguns desses acontecimentos que fazem parte da história da cidade.
Lenda da Caveirinha
Conta-se que, durante o período da escravidão, a Fonte Velha de Paranaguá, conhecida atualmente como Fontinha, era o principal ponto de abastecimento de água potável. Na época, os escravizados eram obrigados a buscar água ali para levar aos seus senhores.
Quem explica é Alessandro Staniscia, orador do Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá (IHGP). Segundo ele, um escravizado muito tagarela, ao buscar água como de costume no final da tarde, já quase anoitecendo, deparou-se com uma caveira amarrada a uma figueira.
Brincando e zombando da caveira, ele perguntou:
— Quem te matou, caveirinha?
E a caveirinha respondeu:
— Quem me matou foi a língua.
Assustado e incrédulo, ele repetiu a pergunta:
— Quem te matou, caveirinha?
E novamente ouviu a resposta:
— Quem me matou foi a língua.
“Esse escravo voltou correndo para a fazenda com o balde na cabeça e contou. Reuniu todos os escravos ali na senzala e de repente o senhor do engenho veio dizendo que ele estava tumultuando, que ele era tagarela, que ele era fofoqueiro e o fez um desafiou dizendo que no dia seguinte eles voltariam a Fontinha e que se a caveira não falasse, ele iria levar chibatadas até a sua execução”, explica Staniscia.
No dia seguinte, assustados e com medo de buscar água na fonte, reuniram-se todos os escravos no local. E, portanto, na frente do seu senhor e na frente de todos os escravos, ele implorou:
– Caveirinha, me conte quem te matou?
Foi o silêncio sepulcral.
E ele de novo:
– Caveirinha, quem te matou?
E de novo, mais uma vez o silêncio.
Disse o seu senhor:
– Se ela não falar, você vai levar sua pena
E, mais uma vez, em desespero, aquele escravo tagarela implorou que a caveirinha falasse. Mas ela permaneceu em silêncio. Logo em seguida, ele foi açoitado ali mesmo, diante da figueira. Quando todos os demais escravizados foram embora, o homem, já sem forças, morreu desfalecido. Seu corpo foi então pendurado na mesma figueira, para servir como exemplo para os demais.
Mas, para a pressa e desespero daquele escravo, quando todos já haviam ido embora, a caveirinha sussurrou:
– Não te disse, quem me matou foi a língua.
Um “túnel” que liga a Fontinha de Paranaguá ao bairro Emboguaçu?
Muito se fala em Paranaguá sobre a existência de um túnel que liga a Fontinha a um bairro da cidade, o Emboguaçu. Há em Paranaguá um grande prédio, originalmente construído para ser o colégio dos jesuítas, com três andares, que hoje abriga o Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da UFPR. Na época, algo extremamente raro para o Brasil nos séculos XVII e XVIII.
Mesmo sem ter sido oficialmente inaugurado como colégio, o prédio mostrava a importância econômica, política e estratégica de Paranaguá naquela época. Entretanto, a inauguração não ocorreu porque os jesuítas foram expulsos do Brasil pelo Marquês de Pombal (em 1759), precisando deixar a cidade de forma apressada, os quais estavam em grande número em Paranaguá, justamente para acompanhar a obra. Com a expulsão, abandonaram o projeto e o prédio nunca foi usado como colégio.
E por isso, pode-se acreditar na existência de um túnel subterrâneo secreto saindo dali (Rua João Estevão, próximo a Igreja de São Benedito) até o bairro do Emboguaçu, e que poderia ter sido utilizado para fuga dos Jesuítas na época.

“É uma lenda, acredita quem quer, mas isso passa através da crença popular, através de gerações. A lenda é uma soma dessas crenças, desses valores e dessas experiências de vida, essas pessoas viveram o regime escravocrata que assolou o nosso país, o regime da colonização portuguesa, recebendo todas essas influências desde o nosso calçamento do Petipavê, da nossa colonização e das influências religiosas de Paranaguá”, ressalta Alessandro Staniscia.
Segundo ele, Paranaguá existe muito antes do Paraná existir. A cidade era um pedaço rico das experiências do Brasil. Gabriel de Lara, quando mandou informações para o reino de Portugal, já dizia que Paranaguá, antes de ser cidade, em 1648, já se tratava de uma terra próspera e organizada, com a notícia do ouro.
“Essas crenças e essas lendas que são transmitidas através de gerações só demonstram a riqueza cultural, histórica, geográfica que Paranaguá atravessou e atravessa ao longo dos séculos. Que Paranaguá possa olhar para o seu passado, servindo como referência para o presente e para o futuro. Paranaguá é uma cidade de terra de pessoas valiosas, criativas, capazes, competentes e tem tudo pronto. Falta ter um carinho, um cuidado maior com o tesouro que nós já temos disponíveis e vistos aqui, seja na área cultural, na área geográfica com o porto, da sabedoria da sua gente, da capacidade de sua gente. Quantas pessoas de Paranaguá se destacam no país e no mundo, fruto da sua vivência, da sua inteligência e da sua capacidade. Basta reconhecermos um pouquinho mais a condição que nós temos aqui enquanto beleza natural, geográfica e pela força da sua gente”, finaliza.

