11 data centers de IA nos EUA podem emitir mais gases de efeito estufa que Marrocos inteiro, aponta investigação do boom digital.
Por Dr. Paulo Budri
•
4 min de leitura
•
Um único dado é suficiente para entender a dimensão do custo climático da febre de inteligência artificial: apenas 11 novos complexos de data centers nos Estados Unidos, projetados para abastecer sistemas de IA de empresas como OpenAI, Meta, Microsoft e xAI, podem lançar na atmosfera mais de 129 milhões de toneladas de gases de efeito estufa por ano. Esse volume supera as emissões totais de Marrocos em 2024. A revelação veio de documentos de licenciamento ambiental analisados pela reportagem da Wired, e o número final pode ser ainda maior.
Os projetos são parte de uma estratégia que especialistas chamam de “behind-the-meter” — usinas a gás natural construídas para contornar a rede elétrica e alimentar diretamente os data centers. Enquanto as operadoras de data centers enfrentam filas de anos para se conectar às concessionárias tradicionais, e a pressão pública contra o aumento das tarifas de luz se intensifica, gerar a própria energia virou a saída preferida. Mas essa solução está reacendendo uma era que muitos acreditavam superada: a da queima de combustíveis fósseis em larga escala.
Data centers viram usinas de gás para contornar a rede
Michael Thomas, fundador da empresa de pesquisa Cleanview, monitora pedidos de licença de gás para data centers em todo o país. Ele descreve o movimento como “uma aceleração louca das emissões”. “É quase como se achássemos que já tínhamos passado da fase suja da Revolução Industrial, aposentando carvão e gás, e agora surge uma nova curva ascendente”, diz Thomas. “Isso me apavora de várias maneiras.”
Os números impressionam. Só os projetos de gás associados aos 11 campi analisados têm potencial para emitir mais do que a África do Sul ou a Turquia emitem por ano, dependendo do cálculo. Mas o levantamento foca em Marrocos porque a comparação é direta: 129 milhões de toneladas contra cerca de 110 milhões de toneladas emitidas pelo país africano em 2024, segundo estimativas ambientais.
Memphis e a resistência de quem vive ao lado das turbinas
Um dos primeiros e mais controversos exemplos dessa lista fica em Memphis, Tennessee. A xAI, empresa de Elon Musk, instalou turbinas a gás em seu primeiro campus, o Colossus 1, para treinar rapidamente seu modelo Grok. A vizinhança, uma comunidade negra de baixa renda, se organizou contra a poluição do ar. No ano passado, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) aprovou o uso das turbinas. No mês passado, reguladores estaduais do Mississippi liberaram a licença para um segundo campus da xAI, em Southaven, ignorando novos protestos.
O que acontece em Memphis não é um caso isolado. Em Virgínia, Ohio e outros estados, projetos semelhantes avançam com pouca discussão pública. A Microsoft, por exemplo, tem um data center em Aldie, Virgínia, que já opera com esse modelo. O ritmo de construção contrasta com os esforços climáticos globais.
O paradoxo da IA que aquece o planeta
A explosão dos data centers não é um fenômeno passageiro. A demanda por processamento de IA deve triplicar até 2030, e com ela o consumo de energia. Enquanto as grandes empresas de tecnologia prometem metas de carbono zero, a realidade no terreno mostra que a solução mais rápida é recorrer ao gás natural. Isso cria um paradoxo: a inovação que poderia ajudar a resolver problemas complexos está agravando a crise climática.
Os pesquisadores alertam que, se todos os projetos planejados forem adiante, o setor de data centers pode se tornar um dos maiores emissores do planeta. E a conta, claro, não aparece nas planilhas de lucro das big techs. Ela aparece no ar que respiramos e no aquecimento global que já sentimos.
Se apenas 11 campi já equivalem a um país, o que esperar quando a inteligência artificial exigir dezenas de vezes mais energia? A pergunta incomoda não só ambientalistas, mas qualquer um que veja a tecnologia como aliada do futuro — e não como combustível para o retrocesso.
Matéria original: https://arstechnica.com/ai/2026/04/greenhouse-gases-from-data-center-boom-could-outpace-entire-nations/