O vício em jogos de azar, chamado ludopatia, virou questão de saúde pública no Brasil. Estima-se que cerca de 11 milhões de brasileiros sejam dependentes das bets – ou seja, 5% da população brasileira. Para lidar com o cenário, o governo federal criou novas opções de atendimento e tratamento para o problema, que afeta especialmente os jovens e grupos mais vulneráveis.
Segundo o Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, publicado neste ano pela Secretaria de Atenção Especializada à Saúde, o enfrentamento do problema exige mais do que intervenções individuais e deve ser tratado como uma questão coletiva.
“As experiências de países que já legalizaram os jogos de apostas (mais de 80% dos países no mundo) apontam: para que as políticas públicas se traduzam em ações abrangentes e efetivas, elas deverão ultrapassar a individualidade do problema e seguir para uma abordagem coletiva e de saúde pública”, diz a cartilha.
Acolhimento na porta de entrada
Uma das principais estratégias é o acolhimento integrado de quem busca ajuda. No SUS, há duas portas de entrada para esses casos: as Unidades Básicas de Saúde (UBS), que fazem parte da atenção primária, e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), voltados para atendimento especializado em saúde mental.
O psicólogo Cassio G. de Azevedo, professor de graduação no Centro Universitário Internacional Uninter e com experiência no CAPS de Curitiba (PR), explica que, em um primeiro contato, se faz um acolhimento sem julgamento, de modo a compreender o vício por jogo não como “falta de caráter”, mas como expressão de sofrimento.
“A partir disso, a equipe faz uma avaliação psicossocial ampliada, que não se limita ao comportamento de jogar, mas inclui condições de vida, situação financeira, relações familiares, contexto emocional”, diz.
Também é feita uma classificação de risco, considerando aspectos como grau de endividamento, prejuízos sociais e ocupacionais, presença de depressão, ansiedade ou uso de substâncias de risco que podem levar ao óbito, que pode ser significativamente maior nestes casos, explica.
Casos mais leves podem ser acompanhados na atenção primária, enquanto quadros mais complexos são encaminhados para os CAPS.
Tratamento combina diferentes abordagens
No SUS, o atendimento inclui avaliação clínica, cuidado de outras doenças associadas e acompanhamento psicológico. O psicólogo especialista em adicções Nino Cesar Marchi, doutorando em psiquiatria e ciências do comportamento pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP), diz que o atendimento costuma ocorrer em duas frentes:
“Intervenções individuais, como terapia cognitivo-comportamental (TCC) e entrevista motivacional, voltadas para reestruturação cognitiva, manejo de impulsos e prevenção de recaídas, e intervenções familiares e psicossociais, que ajudam a reduzir conflitos, fortalecer a rede de apoio e promover reintegração social”.
Nos casos mais complexos, afirma, o cuidado é articulado entre diferentes níveis da rede, garantindo continuidade e monitoramento.
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Teleatendimento em saúde mental
Entre as novas iniciativas, também está a oferta de teleatendimento em saúde mental. Lançado em março pelo governo federal, o serviço é voltado a pessoas com problemas relacionados a apostas.
O acesso é feito pelo aplicativo Meu SUS Digital, com login via conta gov.br. Após responder um questionário, usuários com risco moderado ou alto são encaminhados para consultas por vídeo, com duração média de 45 minutos. A capacidade inicial é de até 600 atendimentos por mês.
Nos casos de risco baixo, o próprio sistema orienta a busca por atendimento presencial na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
De acordo com Marchi, ensaios clínicos recentes mostram que intervenções autoguiadas online e formatos híbridos (teleatendimento + suporte telefônico) reduzem significativamente os sintomas de jogo, com boa adesão e baixo custo.
“Ainda assim, casos graves, comórbidos ou com risco elevado se beneficiam mais de acompanhamento presencial ou híbrido, devido à necessidade de monitoramento mais próximo”, diz.
Para Azevedo, o teleatendimento amplia o acesso ao cuidado, especialmente para pessoas que enfrentam dificuldades de deslocamento ou que vivem em locais com menor oferta de serviços. Por outro lado, fala, há limitações importantes.
“A ludopatia está diretamente ligada ao ambiente digital – é no próprio celular ou computador que o comportamento ocorre – o que pode dificultar o manejo clínico à distância.”
Plataforma de autoexclusão
Outra medida recente é a criação de uma plataforma de autoexclusão, que permite ao cidadão bloquear o acesso a sites de apostas. Em pouco mais de um mês, foram registrados cerca de 217 mil pedidos de autobloqueio, segundo o Ministério da Fazenda.
Ao solicitar o bloqueio, o usuário pode definir a duração da restrição (entre um e 12 meses) ou optar por prazo indeterminado. Nesse caso, há um período de até 30 dias para desistência.
Especialistas, no entanto, alertam que a medida, isoladamente, tem eficácia limitada.
“Sem acompanhamento clínico, pode gerar falsa sensação de controle e ser facilmente burlada. A literatura mostra que sua eficácia aumenta quando integrada à psicoterapia, intervenções familiares e estratégias de prevenção de recaídas”, diz Marchi.
Azevedo vai na mesma linha, e diz que a autoexclusão pode ser útil, mas tende a funcionar melhor quando articulada com acompanhamento em saúde mental e com estratégias mais amplas de cuidado.
Desafios para o SUS
Apesar dos avanços, o enfrentamento da ludopatia ainda esbarra em desafios estruturais. Um deles é a capacitação dos profissionais de saúde diante de um fenômeno relativamente recente e em rápida expansão, comenta Azevedo.
“Muitos profissionais ainda estão em processo de capacitação para reconhecer e manejar adequadamente esses casos”.
A sobrecarga dos serviços também preocupa. “Embora o SUS disponha de dispositivos potentes, como UBS e CAPS, há sobrecarga de demanda em muitos territórios, o que pode dificultar o acompanhamento contínuo e intensivo”, afirma Marchi.
O especialista também ressalta a necessidade de ampliar o financiamento destinado à prevenção, ao tratamento e à pesquisa. Além disso, defende investimentos em plataformas digitais em português, maior integração entre áreas como saúde, educação e assistência social e a realização de estudos de longo prazo para avaliar a efetividade das intervenções.
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