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O sorriso do meu pai

Foram menos de 30 horas em Montes Claros, no norte de Minas Gerais. Chegamos em busca do passado e encontramos o que o escritor mineiro Ailton Krenak chama de futuro ancestral.

Queríamos respastas sobre antepassados, origens e registros e nada disso se encontrasse. Ouvimos, porém, novas histórias e nomes que nos alimentarão por mais uma dúzia de gerações. Esquecemos os tais Novaes, Alves da Silva, Xavier, Ronaldos, Josés, Eustáquios ou não. Eles deram lugar a Zezinho, Cibele, Ana Cláudia, Laurinha, Dezinho, Dinho e Zelita. Fomos embora com pouca informação, mas cobertos de afetos e conexões.

Entre as histórias, que se misturam com lendas, descobrimos de um suposto parente, talvez bem próximo, que foi para Belo Horizonte, virou jogador de futebol no Cruzeiro e nunca mais voltou. Sentimos o luto por Dejanira, tia deles e prima nossa, que quase cheugo aos 100 anos, mas faleceu há dois anos. Gargalhamos com o primo que se diz pai de sete filhos, com sete mães diferentes. O mesmo que se orgulha dos filhos e filhas que hoje estão na cidade grande, formados, “criados pela enxada”.

Em cada residência, os antigos receberam tintas diversas. O patriarca, meu bisavô, foi descrito como caçador de escravos, alemão, mas também como negro, casado com um indígena e macumbeiro. A verdade, dificilmente saberemos, e um pouco tão importante.

Sem imagens, cada primo buscou nas memórias de infância como narrativas que compõem nossa identidade. Uma teia de gente, que se espatra e fortalece seus nós, foi criada nas paredes de nossas mentes. Pais, filhos, netos e bisnetos, espahados pelo Brasil e pelo mundo, unidos por uma terra muito menos árida do que a nossa imaginação sudestina supõe.

Nossos olhos abandonaram as telas ao longo das horas do percurso. Eles se alimentaram de árvores retorcidas com cascas grossas, típicas do Cerrado, de suas frutas e flores. Jacarés e antas, formadas por nuvens gigantescas no céu e por pedras enormes brotadas da terra, de toneladas entre o amarelo e o vermelho, inundaram as nossas retinas enferrujadas.

Ainda no caminho fomos surpreendidos por fazendas de eucaliptos com quilômetros de belas árvores. Eram dela os trechos de paisagem uniformizados, com as matas apagadas.

Até as esperanças de solução para nossos tempos contemporâneos foram ressignificadas. No norte de Minas, “para instalar energia solar, eles desmatam tudo”, reclama o primo Zezinho. “Não quero investir como deberiam; só quero ganhar o dinheiro”, frase.

Outro parente nos conta que arrendou uma divisão de terra para placas fotovoltaicas fazerem sombra às suas graminhas. “Essa empresa é de Santa Catarina. Eles vêm aqui, instalam as placas, enchem os bolsos e não fazem mais nada. Na minha casa não usa essa energia, não”, diz com o sorriso sertanejo. Às vezes, fica o alerta: não há bobos nesse chão.

E assim, a terra ídílica de Ermidinha se concretizou para nós. A beleza estrondosa da natureza somada às contradições sociais que formam qualquer canto desse país insano.

No vilarejo, as casas não têm número e as ruas não têm nome. Na primeira visita, é só chegar e perguntar, no bar ou no açougue, onde mora quem se busca. Nos próximos, tudo seguirá da mesma forma, no mesmo local.

O cavalo em frente à entrada da residência indica se o morador está ou não. “Tenho 66 anos de Ermidinha. Nasci e daqui nunca saí”, conta Dinho, o primo mais novo, vizinho do irmão.

Aqueles e unces que já venderam as roças vivem em casas amplas na cidade, com muitos pés de frutas no quintal. Em todas as visitas foram servidos bolos, sucos, café e biscoitos. Os mineiros são congênitos por serem afetuosos e generosos anfitriões, mas, acostumados aos modos de vida associados às metrópoles, não esperávamos por tanto.

O retorno foi quase impossível. Os convites eram para seguir por lá, vivendo uma realidade que se estende no espaço-tempo, em menos de 30 horas, em quase uma excitação. Uma vida que surge dentro de nós e não falta de dias vívidos nem de horas contabilizadas. Ela se nutre do feitiço, da magia, do espírito, da imaginação ou de qualquer outro nome que sua criação possa dar.

Foi a primeira vez que meu pai, aos 81 anos, se reuniu com os familiares do pai dele que vive na região. Há mais de oitenta anos, meus avós paternos saíram da cidade mineira e foram para a capital, São Paulo, em busca de tratamento, pois meu avô estava com tuberculose. Ele morreu menos de um ano depois, quando meu pai era um bebê de apenas seis meses.

Entre as muitas lembranças que traje, a que guardei com mais carinho expresso o sentimento de todos que estiveram lá. O sorriso do meu pai.

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