Uma proposta ambiciosa para a criação da maior companhia aérea do planeta está sobre a mesa do governo norte-americano. Scott Kirby, CEO da United Airlines, apresentou à gestão Trump a ideia de uma fusão com a American Airlines. Se concretizada, a operação resultaria em uma gigante com receita superior a US$ 100 bilhões, uma frota de mais de 2.800 aeronaves e um controle de aproximadamente 9% do mercado aéreo global, superando a Delta, que deteria cerca de 4,3%.
O Encontro na Casa Branca e a Justificativa Estratégica
A iniciativa de Kirby tomou forma durante um encontro com o presidente Donald Trump em 25 de fevereiro. Embora a pauta original da reunião fosse a reforma do Aeroporto Internacional Washington Dulles, foi nesse contexto que o executivo introduziu a ideia da fusão. A motivação principal, segundo Kirby, seria a de posicionar a companhia combinada de forma mais competitiva em rotas internacionais, onde empresas estrangeiras atualmente dominam a capacidade de assentos em voos de longa distância com origem ou destino nos EUA, mesmo com passageiros americanos compondo a maioria.
Implicações de Mercado e Repercussão Financeira
Atualmente, United e American já detêm mais de um terço do mercado aéreo dos Estados Unidos. A escala financeira das empresas envolvidas é significativa: a United tem um valor de mercado de aproximadamente US$ 31 bilhões, enquanto a American Airlines é avaliada em cerca de US$ 7,4 bilhões. Após a divulgação da proposta, as ações da American registraram um aumento de 8% em um pregão, encerrando um período de três dias de queda, enquanto os papéis da United avançaram 2,1%. Curiosamente, a Delta, não envolvida nas negociações, também viu suas ações subirem 6,9%.
Os Obstáculos Antitruste e a Posição dos Especialistas
A colossal dimensão da fusão proposta é, paradoxalmente, seu maior ponto de controvérsia, levantando sérias preocupações antitruste. Ganesh Sitaraman, professor da Faculdade de Direito de Vanderbilt, argumenta que mesmo o regulador mais leniente deveria bloquear uma fusão tão flagrantemente anticoncorrencial. Andre Barlow, advogado antitruste do DBM Law Group, prevê que a transação reduziria as chamadas 'Big Four' companhias aéreas americanas para apenas três, com um player dominante, o que poderia ir contra as preocupações do governo Trump com a acessibilidade e a redução de opções para o consumidor.
Por outro lado, o então secretário de Transportes dos EUA, Sean Duffy, indicou à CNBC que haveria 'espaço' para fusões no setor e que o presidente Trump 'adora ver grandes negócios acontecerem'. Contudo, ele ponderou que a aprovação provavelmente exigiria o desinvestimento de parte dos ativos das companhias. A decisão final dependeria do Departamento de Transportes, do Departamento de Justiça e da própria presidência. William Kovacic, da Universidade George Washington, foi ainda mais cético, afirmando que as imensas sobreposições em rotas e áreas metropolitanas, como Chicago, seriam tão significativas que 'nenhuma quantidade de desinvestimentos resolveria isso'.
Risco de Tarifas Mais Altas para o Consumidor
Uma das maiores apreensões levantadas por analistas é o potencial impacto nos preços das passagens aéreas. As tarifas já demonstram uma tendência de alta: levantamentos do banco UBS indicaram que, na semana encerrada em 4 de abril, voos domésticos de curta distância na Delta e na United registraram aumentos de 30% a 35% nas tarifas mais baratas em comparação ao ano anterior. Na American Airlines, o aumento foi de aproximadamente 10%. Para viagens com quatro semanas de antecedência, os acréscimos chegam a 20% a 25% nas três grandes companhias. Analistas preveem que uma fusão desse porte elevaria ainda mais esse patamar, dada a redução drástica da concorrência.
Contexto de Consolidação e Desafios Econômicos do Setor
A proposta de fusão entre United e American Airlines não ocorre isoladamente. O setor aéreo tem vivenciado uma onda de consolidação. No início de 2026, quase 60% dos investidores consultados pelo Citi já esperavam um grande evento de fusão ou aquisição no segmento ao longo do ano. Exemplos recentes incluem a compra da Sun Country pela Allegiant por cerca de US$ 1,5 bilhão em janeiro, e a JetBlue, que em março contratou consultores para explorar sua própria venda a um concorrente.
Este cenário de fusões é agravado por desafios financeiros prementes. Desde o início do conflito entre Estados Unidos e Irã, no final de fevereiro, as ações tanto da American (recuo de 14,1%) quanto da United (queda de 10,4%) acumularam perdas significativas. No acumulado do ano, os papéis da United caem 15% e os da American recuam 27%. O aumento do preço do querosene de aviação – que subiu quase 90% desde o início dos ataques ao Irã, impulsionado pelo avanço de mais de 50% no petróleo Brent – pressiona as margens operacionais, favorecendo companhias com estrutura financeira mais robusta. A American Airlines, por exemplo, enfrenta uma dívida de cerca de US$ 35 bilhões, luta para reconquistar clientes corporativos e lida com pilotos insatisfeitos. Em contraste, a United já anunciou uma redução de capacidade a partir de maio, focando em voos fora dos horários de pico.
Conclusão
A proposta de fusão entre United e American Airlines representa uma das maiores transformações potenciais na história da aviação comercial. Embora possa criar um player global dominante e fortalecer a posição americana em rotas internacionais, ela enfrenta barreiras antitruste imponentes e preocupações significativas com o impacto no consumidor, especialmente no que tange aos preços das passagens. O futuro desta megafusão dependerá de uma complexa teia de aprovações regulatórias e da capacidade de ambas as companhias superarem os desafios estruturais e econômicos que atualmente moldam o setor aéreo global.
Fonte: https://timesbrasil.com.br