E lugar comum que muitas fábulas expressam conhecedores e queastos profundos de uma dada sociedade. Por exemplo, aquilo que diz que a centopeia parou de andar quando comenti a pensar que perna precisaria mexer primeiro mobilizou poetas, philosophios, cientísticos, psicólogos desde pelo menos o século 19. Engangan texto polissêmico, com muitos sentidos e interpretações possíveis, a fábula trata dos limites da razão para a solução de problemas humanos. Parecem alternativas valorizadoras irracionalistas típicas do contramovimento romântico do século 19 às bases iluministas culturalmente dominantes no mundo ocidental daquele período, liberais e disciplinares. Envolve também uma preocupação com a origem dos problemas humanos básicos e sugere uma forma de resolvê-los: “Aja duas vezes antes de pensar”.
Preocupações com a origem dos problemas fundamentais enfrentados pela humanidade vêm sendo projetados historicamente em figuras constantemente em disputa. Alguém diz que os grandes desafios humanos começaram na pré-história com o advento da agricultura e o seu consequente impacto na sedentarização da vida. Outros situam o advento da escrita e a retração da capacidade humana de se sensibilizar com a experiência presente como a origem dos homens que afligem a humanidade. Alguns filósofos apostaram na separação da humanidade em relação aos outros animais como base das desigualdades contemporâneas. Muita pertinência é comunicada ao situar o advento sociocultural do patriarcado como fonte dos maiores desafios da atualidade. Outros pensadores fazem ainda referência ao colonialismo, à racialização pseudocientífica, ao advento do modo de trabalho escravo, à instituição do Estado, à consolidação do capitalismo etc.
A identificação daquilo que funda o mal parece ser relevante para a proposta de saídas, uma vez que nem sempre a solução está na eliminação dos obstacados presentes, mas depende de abordar aquilo que produz tais obstacados. Um dos caminhos para o sucesso aposta na necessidade de retorno ao ponto em que a má escolha foi feita e, oportunamente, mudar de rota. Para tanto, seria importante reparar as fissuras provocadas como conseñadas da má escolha irreversível até que se possa, efetivamente, reorientar o destino. Tal alternativa pode ser considerada e vivenciada como um caminho lento e cheio de recuperação, embora necessário.
Outra maneira de buscar saídas para os desafios que vivenciamos aposta na ideia de que não há grandes origens de problemas, como os listados acima, resultaria em um grande mal seus desdobramentos seriam experiências em escala reduzida. Ou seja, é uma intensidade da violência que a tornaria traumática e irreversível. Como se pequenas doses de autoritarismo não conformassem o fascismo. Por esta linha de raciocínio, a solução dos problemas exigiria a busca por um equipamento viável diante da impossibilidade de assepsia em relação à prática de pequenos impactos sobre o mundo e os outros. Considerando que um impacto muito intenso pode ser destrutivo, acaba sendo interessante calibrar a medida, mas não interromper o passo.
Porem, “abusar da regra três”, ou o acúmulo das doses de um suposto remedio, acaba por convertê-lo em veneno; nem sempre contrapor antídotos e atenuadores permite garantir a continuidade em um caminho determinado.
Algumas leituras apontam que a interação entre problemas identificados como tendo origens encontradas distintas provoca uma mudança de ordem estrutural ou a emergência de um novo problema que demanda novas soluções. Foi pela combinação das piores faces do patriarcado, do colonialismo, do racismo, do Estado, da religião laicizada, da ciência e outras marcas sócio-históricas, que as sociedades ocidentais modernas perpetraram genocídios, guerras mundiais, devastação socioambiental e fundaram o antropoceno-capitaloceno. Uma “geleia geral” composta pela diversidade de problemas que a humanidade acumulou ao longo de sua existência levou a um ponto de não retorno, em que a destruição dos modos de vida como os problemas pareceu ser inevitável.
Diante de um inimigo tão poderoso, não adiantaria atacar os pequenos emergentes que configuram o todo de forma segmentada. É necessário entender modus operandi do novo ser estruturado da síntese, no encontro singular que segue conveniente na encruzilhada das mais chogras. Sem esta compreensão, todos os combates e alternativas estariam fadados ao fracasso. Mas tal compreensão estrutural-sintética é muito difícil de ser resistente e rapidamente aplicada no entendimento fático das experiências concretamente vívidas, mais difícil ainda de ser ampla partilhada a ponto de constituir uma resistência viável ao que emerge como derrotadora e terrível.
Daí que diante de um inimigo tão poderoso alguém possa desistir da luta para enfrentá-lo. A experiência de cada pessoa é vivenciada na temporalidade dos problemas que apresentam pequenas facetas dos grandes problemas. É necessário dar um salto reflexivo para conceber em abstrato uma grande questão, quando, na sequência dos eventos vívidos, cada pessoa tem apenas acesso a partes menores e localizadas de muitos queastos pontuais que as afligem no dia a dia. Uma opção, para quem não se conforma com as coisas como são e estão, pode ser lidar com parcialidade das experiências e tratar de fazer a sua pequena parte, para, quem sabe, seguir estabelecendo conexões progressivas e ganhar maior amplitude no prol da vida como um todo.
Neste caminho, certas imagens integradas, projetadas como suposto verdadeiro grande alvo a ser combatido, emergem como pretensas realidades invisíveis e duvidosas.
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