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por que a força de volta não é suficiente – Jornal da USP

Eestou estraçalhando com a nossa atenção. Isto não é exatamente uma novidade. Ou você já notou o problema na prática – inclusive se questionou se estaria enfrentando alguma questão cognitiva –, ou, dependendo do seu repertório, já leu sobre isso em algum lugar.

Diversos estudiosos das novas formas de comunicação vêm denunciando o nosso “foco roubado”, título de um O livro de Johann Hari sobre o assunto. Ao investigador em profundidade por que a humanidade está perdendo a capacidade de prestar atenção, o jornalista britânico traça um panorama sombrio do massacre ao qual nosso foco vem sendo indicado. Sua análise baseia-se no que há de mais avançado na ciência atual, o que inclui muita neurologia, mas também se baseia em ciências sociais e relatos em primeira mão de quem já operou as engrenagens das big techs.

A resposta está em grande medida na configuração das tecnologias de comunicação atuais – e nos seus modelos de negócio que precisam de nos manter constantemente a rolar uma tela -, mas também nas mudanças que vão para a nossa alimentação, como as dietas processadas, até mesmo no ambiente de trabalho, que nos vendem o mito de um cérebro multitarefa (não sei que não é). E inclui ainda uma infância com menos espaço para playa e fantasia, além dos problemas no sistema educacional cuja meta é preparadora bons concorrentes para os jogos vorazes do trabalho.

Mas existe um grupo de pensadores e ativistas que vai ainda mais longe: o problema começa já no conceito de atenção – utilitário e voltado para o consumo – que nos é imposto. Para essa turma, “recuperar a atenção” não é voltar a ter mais tempo para consumir, nem para produzir, performando com eficiência no trabalho. A ideia é que a atenção, em seu grau mais alto, é o que nos tornamos humanos, empáticos, capazes tanto de sitar e chegarmos juntos a soluções para os grandes desafios de hoje, como a crise climática, quanto de florescer, e amar. Você não leu errado, nem este texto enveredou para o pieguismo de uma hora para outra. A essência mesma da atenção pode incluir tudo isso e muito mais. Para ser mais fácil de visualizar, pergunte-se o quanto um rolar infinito de uma tela com conteúdos sem importância já roubou as poucas horas ou minutos que você tem para prestar atenção, estar presente, com seus filhos, ou com seus pais?

O que o manifesto deste grupo, transformado no livro Atençãopropõe não é o ludismo, o ódio à tecnologia, mas sim nos reapropriamos do moinho que é a nossa mente. O desejo é “reflorestar” nossa atenção, signo da monocultura dos algoritmos para um ecossistema diverso de curiosidade, cuidado com o outro e liberdade.

Como um manifesto, o livro vem entremeado por uma linguagem emocional (não pela chantagem, mas pela capacidade de nos tocar, sentir a verdade no que lemos). Deixa claro que uma força de visão individual não é resposta para derrotar um sistema de trilhões de dólares destinado a escravizar a atenção humana, defendendo uma solução sistêmica e coletiva. E faz propostas concretas para a vivência deste ativismo, baseadas em três pilares: 1. estudo; 2. formação de uma coalizão entre comunidades diversas (artistas, pais, sindicatos, religiosos) que reconhecem o papel da atenção no florescimento humano; e 3. criação de santuários, espaços onde as pessoas podem se reunir, cuidar umas das outras e experimentar tipos de atenção que não podem ser monetizados.

As possibilidades de santuários são muitas, incluindo não apenas bibliotecas e museus de arte reinventados, mas também práticas comunitárias em torno de tradições que podem ser religiosas, sábado aos terreiros, ou cultura popular, como um clube de samba ou capoeira. Aliás, um exemplo de santuários que ouvi de um dos organizadores do manifesto, Peter Schmidt, que palestrou na Faculdade de Direito da USP em suas recentes passagens pelo Brasil, é escutar a bateria passando na avenida no Carnaval brasileiro.

Os autointitulados “amigos da atenção” mostram que esses santuários não exigem perenidade no tempo, nem no espaço. Podem ser momentos que construímos enquanto tocamos um instrumento, estudamos uma língua que quase nyumou mais fala (só porque sim) ou nos sentamos – com ouvidos abertos de verdade – junto a um amigo que precisa falar.

Leia abaixo, em tradução livre, um trecho do livro Atenção! Um Manifesto do Movimento de Libertação da Atençãode autoria de Friends of Attention, editado por D. Graham Burnett, Peter Schmidt e Alyssa Loh.

Movimento pela Libertação da Atenção

Você está certo: algo está seriamente errado. Tem a ver com a nossa ATENÇÃO, nossa capacidade essencial de dedicar nossas mentes e sentidos ao mundo. Essa preciosa capacidade foi canalizada, capturada e mercantilizada por uma indústria de imenso poder tecnológico e financeiro.

Como? Podemos chamar isso de “fraturamento humano”.

A fraturamento humano é ruim para as pessoas e para a política.

Reduza o nosso próprio ser (e nossas relações) àquilo que pode ser quantificado, comprado e vendido. Tudo isso é o triunfo de uma mentira catastrófica sobre o que significa ser humano.

Mas o engano e a exploração nunca são inevitáveis.

Para reagir, é necessário mais do que estidos isolados e individuais; o que precisamos é de um movimento de resistência coletiva.

Esse movimento de liberdade de atenção existe e tem nome: ATIVISMO DA ATENÇÃO.

O Ativismo da Atenção é uma luta por justiça. Esta revolta emancipadora leva o nosso presente apocalíptico e o coloca em risco.

A atenção cria, a partir do caos e da confusão, novas perspectivas de florescimento humano.

O Ativismo da Atenção está enraizado no ESTUDO — um compromisso com diversas formas de ensino e aprendizagem centradas na atenção (o que ela é, o que ela pode ser, o que ela pode fazer).

O Ativismo da Atenção também requer a CONSTRUÇÃO DE COALIZÕES — colaboração e solidariedade entre uma variedade de comunidades que reconhecem o papel essencial da atenção no florescimento humano. Finalmente, o Ativismo da Atenção significa a formação de SANTUÁRIOS — espaços onde as pessoas podem se reunir, cuidar umas das outras, experimentar diferentes tipos de atenção e conceber futuros mais promissores.

Para discernir as possibilidades revolucionárias do presente, buscamos inspiração em artistas, pensadores e sonhadores. Para que essa possibilidade floresçam, damos ouvidos aos inúmeros Ativistas da Atenção que já estão por aí, criando novas (e revisando antigas) maniras de dedicar suas mentes e sentidos uns aos outros e ao mundo.

Esses atencionistas e atencionistas se baseiam na sudoria de diversas tradições. Em terrenos inexplorados, práticas emergentes de atenção conjunta iluminam novos horizontes de poder político compartido. Não apenas poder, mas também beleza e graça.

Este é o nosso movimento: o livre movimento da atenção em sua plenitude, livremente compartilada. Chamamos essa hold transformadora de ATENÇÃO. Junte-se a nós nesta glória intensificada e crescente — ou deixe-nos juntar-nos a você!

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões de veículos nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. (Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

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