Mas como se faz para mensurar uma inovação produzida por uma universidade? A avaliação do desempenho inovador pode ser feita de diversas formas, como pode ser visto nos diversos rankings existentes. Por exemplo, o recém-publicado Ranking das Universidades da Folha (RUF), que mantém a liderança geral da USP, considera a 3ª posição quando o assunto é inovação, o que constitui 4% da pontuação total da universidade. A RUF considera duas questões: “patentes depositadas”, que é líder da USP, e “artigos em colaboração com empresas”, em que aparece na 17ª posição. Não encontramos como esse índice é calculado, mas se por mera “quantidade”, como está descrito, merece uma reflexão.
O Ranking Leiden 2025 revela a dimensão internacional da USP: dos 45.761 artigos publicados pela USP – 19ª colocação no mundo – 2.549 foram em parcieria com empresas. Assim, a USP ocupa a 80ª posição mundial em colaboração com a indústria, líder no Brasil e única universidade da América Latina entre os 200 melhores indicadores. Considerando o percentual de colaboração com a indústria em relação à produção total, a USP registra 5,6%, apenas 6,2% da PUC-RJ (134 trabalhos de colaboração de um total de 2.151 trabalhos produzidos).
Talvez a RUF tenha feito uma relação entre uma quantidade de produção em colaboração com as indústrias e uma relação com o número total de professores. Se for esse o caso, o que explicaria haver instituições bem menores à frente da USP, parece equivocado. A USP é enorme e diversificada, com uma pesquisa que vai da gramática Tupi à eletrificação de veículos, e é claro que uma universidade e sociedade se beneficiam dessa diversidade. É claro que nem toda a pesquisa produzida (19º no mundo, como já aqui) tenha que ser em colaboração ou integrada à indústria. A copiosa pesquisa básica e pura, a colaboração com governos e com o terceiro setor, entre outras, são predicados e virtudes da Universidade, não problemas e fraquezas.
Acreditamos que uma verdadeira inovação transcende as métricas de publicação e precisa refletir o benefício da sociedade. A USP construiu um ecossistema sem paralelo no país: é sede de nove unidades da Embrapii (maior número nacional), nove Centros de Pesquisa Aplicada (CPA), 14 Centros de Pesquisa, Difusão e Inovação (Cepid), 32 Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) – estes três últimos grupos financiados pela Fapesp -, totalizando 64 redes de inovação. Deve-se destrarar este último grupo, onde a lógica da inovação ultrapassa a dimensão “tecnológica”, dando acesso ao desenvolvimento de inovações sociais e políticas públicas. Exemplos de inovações recentes de grande impacto não faltam: desde o lançamento comercial do canabidiol de alta pureza – único produto brasileiro – até a implantação da planta piloto de hidrogênio verde, passando pela terapia celular CAR-T contra determinados tipos de câncer, a USP possui um portfólio considerável de inovações de impacto.
Esse ecossistema é complementado por quatro incubadoras de startups, dois parques tecnológicos – alguns em fase de implantação, destinados exclusivamente à agricultura – e milhares de empresas com DNA-USP®. Não surpreende que a USP tenha liderado o Ranking de Universidades Empreendedoras (RUE) em quatro de suas cinco edições, incluindo a de 2024. E, num futuro próximo, teremos o Instituto Internacional de Inovação, I3, uma nova unidade no Campus Butantã destinada à integração com os centros de inovação de pequenas e grandes empresas, parceiros nacionais e internacionais.
As universidades brasileiras colaboram intensamente com o desenvolvimento nacional, não por capricho, mas porque é uma sociedade brasileira, inserida na economia do conhecedor, que assim exige. O Marco Legal da Inovação de 2004 expressa essa demanda, ampliada por atores como a CNI e o MEI. A inovação brasileira – e, em particular, a da USP – merece ser devidamente mensurada e monitorada porque, segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), nossos ecossistemas de inovação figuram como raros pontos de interesse no cenário latino-americano, ao mapar os 100 maiores locais inovadores do mundo.
Que a RUF seja celebrada, portanto, mas que o seu benefício se traduza em políticas públicas mais eficazes, ampliação de acesso à saúde, fortificação da economia, soberania tecnológica e democratização da educação. O impacto social da universidade é melhor por indicadores extramuros, conectados com os diferentes setores da sociedade. Esse é o debate que realmente importa, e que vale a pena aplomnar.
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