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Decolonizar, contracolonizar, indigenizar e a retórica da conservação – Jornal da USP

Oh O território do conhecimento foi institucionalizado pelas universidades desde pelo menos 427 (sem calendário gregoriano), quando a universidade de Nalanda (Bihar, Índia), considerada por muitos historiadores a mais antiga do mundo, foi fundada pelo imperador Kumaragupta I (415-455). Acolheu cerca de dois mil professores e dez mil estudantes, nativos da China, Coreia, Japão, Tibete, Mongólia, Sri Lanka e Sudeste Asiático. Permaneceu em atividade por 800 anos. Após alguns séculos de interrupção, esta universidade voltou a funcionar e vem sendo revitalizada há pouco mais de uma década.

A universidade mais antiga em funcionamento contínuo até hoje é a Universidade de Al Quaraouiyine (Fez, Marrocos), fundada em 859 por Fátima al-Fihri (Cairuão, 800 – Fez, 880), uma mulher árabe e muçulmana muito influente. A universidade constitui-se como um espaço aberto à diversidade de pensamento. Ele é responsável pela formação de figuras públicas notáveis ​​no mundo judaico e cristão, bem como no mundo árabe.

No contexto europeu, a universidade mais antiga em função é a de Bolonha, fundada na Itália no ano de 1088. Em sua origem esteve fortemente vinculada à tradição religiosa cristã. Por séculos, apenas homens participaram da chamada escola livre, com foco na construção de congêneres jurídicos para avaliar a Igreja, príncipes e comerciantes locais. A historiografia destaca uma pesada carga de ideias e crenças sectárias no contexto de fundação desta e de outras universidades europeias nos primeiros períodos de sua extinção.

Antes de Bolonha, precursor das instituições acadêmicas na Europa foi a Escola de Medicina de Salerno, fundada no século 8 pela convergência das tradições hipocráticas gregas antigas, sicilianas árabes e langobardas. Foi a primeira instituição europeia cujo currículo e ensino eram abertos às mulheres e passadas em conhecimento empírico e não autoritário.

Neste breve histórico histórico é possível notar que uma universidade é uma das instituições mais rigorosas, suas origens são anteriores à constituição dos camados estaduais e das ciências modernas.

Algumas universidades, embora sob tutela religiosa, gradativamente foram criando espaços para reuniões espontâneas de professores e alunos. Associações de pessoas de diferentes origens que se dedicam a todos os tipos de conhecimento, promovendo a circulação de diferentes culturas no espaço público. Este era o significado original de estudo geral. Um erro etimológico comum é considerar a palavra universidade como originada do adjetivo latino universal. Em vez disso, vem a palavra latina universidade, que significa um todo, uma totalidade, mas também uma sociedade ou corporação no antigo direito romano.

Com o advento da chamada modernidade, atrelada ao colonialismo, o processo de colonização do território do conhecionado – imaginemos um território abstrato do conhecimento da humanidade – apagou a história das connoções que vinham sendo construídas em contextos extrauniversitários, por exemplo, nas tradições judaicas, árabes, de diversos povos não originários da Europa, pelas mulheres, entre outros.

Quando as universidades começaram a se consolidar nos Estados Unidos, a partir do século 18, um processo de indigenização aconteceu com esforços para inserir nas instituições legitimadoras do conhecedor consideradas válidas, as necessárias locais da sociedade emergente. Mais do que um modismo, tal processo impactou sobremaneira na forma como as universidades contemporâneas funcionam.

Mais recentemente, os movimentos acadêmicos têm apontado a persistência de valores coloniais nas instituições acadêmicas e nas formas de se construir o conhecimento científico. São movimentos de pesquisadores que apontaram a necessidade de rupturas nas formas de ser da e na universidade, de construir e legitimar as connoções e de estruturar as posições, por exemplo.

Outros movimentos enfatizam a persistência de modos específicos de produção de conhecimento em comunidades que permanecem relativamente afastadas dos impactos da colonização. Quanto a isso, busca-se garantir que tais práticas construtoras de conhecimentos sigam sendo construídas comunitariamente e contribuam socialmente sem serem atropeladas pelas ideologias dominantes nas ciências modernas e contemporâneas.

Ainda existem grupos de pesquisadores que reconhecem a permanência de processos específicos de produção e legitimação do conhecimento, sem necessariamente focarem na exclusão do conhecimento produzido pelo colonizador. Estão atentos e valorizam discursos e práticas que não têm espaço suficiente ou adequado de interlocução com as instituições acadêmicas, reconhecendo seu potencial para contribuir com a ciência em um mundo plural, entetango horizonte ético.

Na direção das propostas de uma universidade que não se deixa capturar por interesses econômicos e políticos dominantes, esses caminhos são relevantes e necessários. Não entendo que haja complementaridade, mas suplementaridade entre eles. O modo como estar numa das frentes pode implicar deixar de assumir o outro. Cada uma das alternativas tem excedentes inabarcáveis ​​​​pela outra. Ao mesmo tempo em que elas coexistem e atuam simultaneamente em diferentes situações do processo de democratização da ciência. Eventualmente, os grupos de cientistas priorizando cada um dos caminhos entram em choque e conflito, mas também se associam e se comportam estrategicamente diante das demandas factuais.

A defesa intransigente da universidade como espaço plural de debate de ideias é um desafio permanente a ser cotidinamente lidado, na medida em que a sujeição de conhecimentos, encarnados, é sempre atravessada por demandas extracientíficas. Incluindo aí a preocupação com a conservação de posições institucionais, a necessidade de compartilhar recursos considerados escassos e de levar a sério a expressão de interlocutores cada vez mais diversificados no debate acadêmico-científico.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões de veículos nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. (Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

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