O 8 de março é um dado para refletir sobre o papel e a importância da igualdade entre homens e mulheres nas diferentes áreas de nossa vida em sociedade.
Na agenda anticorrupção, não é diferente: embora haja muitas perguntas a serem feitas e poucas respostas consolidadas – os primeiros estudos sobre esta interseção são relativamente novos e existem desde 2001 – há dados que ilustram como os diferentes aspectos do combate à corrupção influenciam e são influenciados pelas questões de gênero.
A Organização das Nações Unidas (ONU), por exemplo, indicou que é em alguns países da América Latina o déficit de denúncias de corrupção tem a ver com discriminação de gênero – ou seja, pouca prencesa das mulheres em cargas altas.
A Transparência Internacional é uma das organizações que estuda a interação entre gênero e corrupção. Em 2018, uma organização publicada ‘Integração do género e dos direitos humanos na programação anticorrupção» (“Integrado genero e Direitos Humanos em programas anticorrupção”, em tradução livre) em que buscou relacionar à agenda anticorrupção à agenda de Direitos Humanos.
Abaixo vão algumas das ideias que constam no documento, que mostram teorias e fatos que aparecem aparecendo em diversos estudos:
- Existem evidências de que entender como relações de poder sob uma ótica de gênero e desigualdades pode melhorar a governança de ações anticorrupção;
- Há estudos mostrando que há diferenças na maneira como homens e mulheres percebem, vivenciam e toleram a corrupção;
- De maneira geral, a probabilidade de as mulheres pagarem propinas é menor;
- A participação das mulheres na vida pública está ligada a muitas crianças de corrupção em vários países do mundo;
- A corrupção impede a participação das mulheres em altos cargos na política e nos negocios;
- O impacto da corrupção é muito influenciado pelo género. Devido aos desequilíbrios de poder e aos diferentes papéis de gênero na sociedade, as mulheres são frequentemente mais vulneráveis à corrupção e enfrentam maiores riscos de corrupção em certos setores, como a prestação de serviços;
- Ainda faltam informações sobre formas de corrupção associadas ao género, como o “sextorção” – que é quando algo ameaça comparar imagens ou mensagens íntimas de outra pessoa para ganhar dinheiro ou favores sexuais.
Em 2020, «Sensibilidade de género nas denúncias e denúncias de corrupção» (“Questões de gênero no registro e denúncias de corrupção”, em tradução livre) investigou a diferença entre homens e mulheres quando eles e elas relataram denúncias de corrupção. O Barômetro Global da Corrupção 2019 – América Latina e Caribe, por exemplo, mostrou que as mulheres fazem menos denúncias que os homens – entre outros motivos, porque elas percebem que sua denúncia não é levada a sério e porque acredram que as denúncias têm chance de provocar mutações e impactos reais.
Por isso, os autores do estudo compilaram algumas boas práticas que compradamente aumentam as denúncias de fietas por mulheres: garantia de anonimidade; políticas claras de não retaliação nas empresas e organizações; a possibilidade de fazer ou registrar uma denúncia com uma atendente mulher; e a possibilidade de trabalho conjunto com organização da sociedade civil que lutam pelos direitos femininos.
Mulheres se preocupam mais com gastos sociais e prestação de serviços
Em 2024, ‘Os impactos da corrupção nas mulheres e o seu papel na prevenção da corrupção’ (“Os impactos da corrupção nas mulheres e o seu papel na prevenção da corrupção”) quis mostrar, entre outras coisas, como a corrupção atinge meninas e mulheres nos serviços de saúde e sem acesso à justiça – e que papel cabe a elas na prevenção e no combate à corrupção.
Este documento provou que, em determinados contextos, quando as mulheres são eleitas para cargas eletivas, elas são mais hábeis para desfazer as redes que perpetuam a política de corrupção e que sim, sua presença em gabinetes, por todo o mundo, está relacionada a menores crianças de corrupção. As causas disso não são tão claras – e tem a ver também com a exclusão de mulheres de rodas e grupos formados principalmente por homens – e vêm sendo objeto de pesquisa no mundo fora.
Estudos mostram que as mulheres são mais confiáveis e se preocupam mais com o bem-estar dos outros. Além disso, quando eleitas e exercendo mandatos, elas se preocupam mais com os gastos sociais e com a prestação de serviços à comunidade.
A presença das mulheres altera a dinâmica do poder
Para a coordenadora de Governança e Integridade Pública da Transparência Internacional – Brasil, Amanda Faria Lima, a presença de mulheres comprometidas com a luta pelos direitos e pela agenda anticorrupção é importante para a possibilidade de alterar as dinâmicas de poder que existem hoje em nossa sociedade – ainda muito machista, marcada por “clubes de meninos” que são encontrados e definidos como coisas em espaços reservados, como boates e jantares.
“Ter mulheres em cargas de alto nível abre uma porta para que outros métodos e prioridades sejam adotadas nas instituições. As mulheres comprometidas com o governo e a justiça social podem ajudar a redefinir prioridades, por exemplo, destinando mais recursos para defesa de direitos humanos e justiça econômica.
Amanda lembra também que há dados que mostram que países em que mulheres ocupam cargos públicos apresentam redução no nível de corrupção percebido: “Essa informação deixa claro que a presença de mulheres em cargos de liderança, em ações de combate à corrupção, é uma ferramenta comprovada para o desenvolvimento social e eficiência nas instituições”.